Elefante Entrevista

Bate-papo com a designer Lilivic | Entrevista

O Elefante Voador está sempre de olho em novos artistas, designers, ilustradores. Nossos amigos mais próximos acabam nos indicando ou comentam que viram tal pessoa que seria interessante para nós conhecermos. Nessas indicações, falaram da designer Lilivic, nome artístico de Aline Victor.

Lembrando: você, leitor, também pode fazer a sua indicação para aparecer aqui no Elefante Voador 😉

Em uma conversa descontraída, eu, Isis, encontrei a Lilivic em um shopping de São Paulo, e ficamos num bate-papo por ~algumas~ horas, sobre carreira, a nossa geração, vivências, a vida, o universo e tudo mais. A seguir, você confere quem ela é, seu trabalho e muito mais.


Elefante Voador: Quem é a Lilivic?

Lilivic: Lilivic é uma arquiteta, paisagista, que esse ano resolveu querer mais.

Elefante Voador: Qual a sua formação?

Lilivic: Eu sou formada em arquitetura e urbanismo pelo Mackenzie, me formei em 2007. Na sequência, eu fiz uma pós-graduação pela POLI, em Gestão e Tecnologia Ambiental. Durante toda minha vida, eu sempre desenhei e desde que eu entrei na faculdade, trabalhei com paisagismo. Paisagismo é uma coisa incrível, porque é uma forma de você trabalhar com cores e texturas, numa escala que escapa do desenho.

Uma das coisas que mais pesou nessa decisão recente (sair do escritório e viver do seu próprio trabalho) foi o fato de que o mercado vai engolindo a nossa criatividade e a gente vai se tornando mais mecanizado. No começo da faculdade, você tem  tudo muito aflorado: sempre desenhei e criei. Na hora que você entra no mercado de trabalho, você acaba se tornando uma parte da equipe com um trabalho muito mais mecanizado, faz apenas o projeto executivo. Isso não acontece apenas se você for o dono do seu negócio, aonde você tem essa liberdade toda pra criar. Durante muito tempo, pra mim, foi bom, é a parte do processamento, você tá aprendendo. Porém… isso pra mim, começou a não fazer mais sentido.

Na hora que eu tive esse rompimento, na verdade é um resgate. Eu to num processo agora de voltar a ser criativa e uma esponja ao máximo [absorver tudo]

Elefante Voador: A quanto tempo você se dedica a ilustração?

Lilivic: A ilustração profissionalmente faz alguns meses, que foi o momento que eu sai do escritório. Eu fazia isso de forma paralela, mas chega um momento que você é tão engolido pelo seu dia a dia no trabalho, que acaba não sobrando tempo… não é nem só o “sobrar tempo”, é a questão da energia e da motivação para você se dedicar a isso. Você fica tão absorto no trabalho, fica tão maluca com as coisas, que acaba fazendo uma parte na hora que consegue apenas e eu não conseguia! Eu tava sempre tão cheia de coisas que não tava conseguindo me dedicar a isso. Então eu passei por um processo de preparação psicológica, mas eu acho que é igual a um casamento, mudar de país, ou ter um filho, você nunca tá preparado.

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Elefante Voador: Como é o seu processo de criação?

Lilivic: Meu processo de criação tem muitas referências do mundo da arquitetura, que é da onde eu vim, e do paisagismo. Então… Margaret Mee que era uma britânica e fazia desenho da flora brasileira; Roberto Burle Marx, que foi um dos maiores paisagistas, artista plástico, conseguiu traduzir uma obra de arte num espaço onde a pessoa pode circular, uma obra que é quase uma cenografia; e todo tipo de arte que possa existir! Por isso, no meu trabalho, eu agora assino como designer, porque acho que é até uma questão de mercado, já que fiquei muito tempo “presa”. Igual uma etiqueta que descreve “O que eu sou?”.

Eu sou uma criadora, eu sou uma inventora, eu sou uma desenhista e isso tá em qualquer lugar: você faz um desenho de um piso, faz um desenho de um copo, faz um desenho de um ventilador, de um carro, de um foguete, ou uma ilustração que vai na capa de um caderno, tudo isso é um processo criativo. Absolutamente tudo me inspira e, principalmente, hoje as coisas que são relacionadas a esse mundo moderno: os novos aparelhos, novos carros, tudo isso que transpira essa… que respira essa modernidade. Acho isso muito bonito, então, não tem como falar uma coisa só, sabe?

Elefante Voador: Quais são suas referências e inspirações?

Lilivic: Eu me inspiro absolutamente em tudo, eu tenho uma sensibilidade muito grande. Eu gosto muito de pessoas e esse foi o grande motivo de ter feito arquitetura: eu gosto de pessoas!

Como as pessoas interagem, como elas interagem entre si, como elas interagem com a natureza, no meio urbano… Então, as pessoas… Elas tem necessidades, esse dia-a-dia, essas delicadezas, isso tudo é uma coisa que eu gosto muito e eu tenho muita sensibilidade a isso. Por exemplo, a gente tá aqui junto, já vi a sua blusa, o seu cabelo do jeito que está preso… Já começo a pintar uma ideia de um personagem, tudo pode ser uma inspiração, né.

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Elefante Voador: Quais plataformas que você utiliza para divulgar o seu trabalho?

Lilivic: Hoje eu tenho um site que está e estará em eterna alimentação, cada projeto que faço, cada desenho que desenvolvo, estou alimentando ele. Eu tenho algumas das minhas ilustrações estampando alguns produtos no colab55 e algumas que estão pra serem colocadas no society6, que é uma forma também de testar a absorção do mercado, e ver qual tipo de ilustração que as pessoas gostam mais. Se é numa bolsa, case de celular… Nesse momento, eu to na fase da experimentação.

Uso bastante o instagram como divulgação… E até uma coisa que vai fechando a outra, eu fiz uma prancha de surfe, que tomou uma proporção muito grande. As pessoas começaram a chegar até a mim através do surfe. Por isso, hoje, eu tenho alguns trabalhos e projetos, que estão mais nesse ramo, voltados mais pra esse público, relacionadas a uma prancha de surfe, ao esporte, a esse estilo de vida! Eu acho que tem tudo a ver com aquela história do paisagismo, tudo se encaixa.

Ainda não tenho uma fanpage da Lilivic, uso meu facebook pessoal bastante e por lá que comecei a minha divulgação.

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Elefante Voador: Como iniciou a ideia de pintar os shapes, as pranchas?

Lilivic: Começou porque o meu namorado surfa. Um dia a gente comprou a prancha (com um amigo de um amigo) sem resina e dai desenhei na prancha dele. Na hora que devolvemos para passar a resina, ele curtiu pra caramba e começou ‘aquela’ divulgação.

Primeira prancha desenhada pela Lilivic
Primeira prancha desenhada pela Lilivic

Ele tem um parceiro de negócios que faz a parte de marketing, de representação. Esse parceiro junto com outro grupo, me chamou pra fazer um trabalho, em dezembro. Era fazer um living paint (pintura ao vivo) na prancha de surfe de um atleta que eles estão patrocinando.

Então, [a ideia de pintar shapes] começou com um desenho… Não vou falar pra você que eu fiz de qualquer jeito, fiz intencionalmente, mas que teve uma resposta muito rápida. é um esporte que tá crescendo muito, exemplo é o Gabriel Medina. De anos atrás que você tinha o surfe como um esporte que ninguém falava muito, menosprezado, agora você tem agora um ídolo, uma equipe, tem pessoas olhando pra isso. E é muito bom porque as pessoas começam a valorizar esse mundo, esse estilo de vida,

A prancha deixou de ser prancha, ela é um símbolo de quem você é.

É legal você ter uma prancha com a sua marca. O desenho que eu faço não é adesivado, não faço um stencil, o desenho é direto na prancha, faço apenas um “rabisco” antes, um esboço. Mas cada prancha é única, e isso é bastante daquilo da minha formação de arquiteta, é entender o cliente, entender a necessidade dele, e imprimir a minha marca, mas a pessoa tem que sentir que aquilo é dela, é único, conta uma história.

A historia da prancha começou com o namorado ali do lado… Foi o lance de perceber uma oportunidade, porque na hora que ele comprou a prancha, ele falou: “queria um desenho…”

Se você quer um desenho, outras pessoas também querem… por que você não comprou uma já com desenho? Se você não gostou de nenhuma, eu vou fazer esse desenho!

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Nessa hora eu fui a “arquiteta”, pensei em trabalhar como arquiteta: a pessoa fala o que quer pra casa dela, e ele me falou o que queria com a prancha dele. No surfe, você tem o momento do “outside”, esperando a onda vir, você fica sentado em cima da prancha, e é um momento muito meditativo, você tá lá sozinho, no mar, e a prancha… você fica olhando diretamente pra ela. Então cria uma relação de pertencimento, de você querer olhar pra ela: “pô, que bonita”, “minha prancha”, sabe? Você ter a sua marca.

Por que ele não comprou a prancha com desenho? Porque os desenhos que estavam nas lojas não significavam muito. Então eu comecei a desenhar já vislumbrando uma possibilidade.

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Detalhe da prancha
Detalhe da prancha

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Elefante Voador: Esse [o shape] seria o trabalho mais desafiador da sua carreira?

Lilivic: O trabalho mais desafiador da minha carreira é o próximo. Com certeza, toda vez que a gente achar que tá ficando muito simples, é porque não tá tendo aquele mojo.

Acho que tudo isso foi um dos motivos que me fez procurar uma outra forma de expressar essa minha criatividade, porque é muito gratificante você desenvolver algo pra uma pessoa, e você vê a pessoa usando aquilo, o seu desenho, a sua ideia, aquilo que estava dentro da sua cabeça. Cada trabalho é muito único, cada pessoa tem uma história, cada pessoa tem uma vontade, então eu sempre acho que o próximo trabalho vai ser o mais desafiador.

Estou com um projeto que, provavelmente, vai acontecer no final desse mês [janeiro]. O pessoal já entrou em contato para ver se eu estava afim de fazer… Fazer um mural, ai já dá aquele “Nossa! Como eu vou fazer um mural?” e é pra fazer ao vivo, durante um evento. Isso, pra mim, já é desafiador. Fico pensando: “Vou ter que ter uma escada? Que tipo de desenho a pessoa vai querer? Que tipo de público vai estar olhando aquilo?”. Isso é desafiador, o próximo trabalho que me chamarem vai ser mais desafiador, então eu falo: “Beleza! Subi numa escada de 5 degraus, fiz na frente de todo mundo… É fácil, já fiz…”. Ai no próximo a parede é maior, pendura no penhasco, agora vai fazer um teatro, então eu acho que cada situação é muito única.

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Elefante Voador: Um sonho a realizar?

Lilivic: Meu sonho é ser reconhecida não apenas pelo meu trabalho, mas ser reconhecida como uma pessoa que faz os melhores trabalhos naquilo que se propõem. Eu quero que o Lilivic seja um nome associado a coisas boas.

Elefante Voador: Uma característica marcante do seu trabalho?

Lilivic: Meu trabalho é um trabalho colorido, um trabalho feliz. Eu gosto muito de grafites, gosto muito desse tipo de expressão, porque tem bastante a ver comigo, no sentido de ser uma arte muito colorida, não todos, obviamente, mas, essas grandes pinturas, essa forma de você levar cor pra vida das pessoas.

A maioria dos meus trabalhos, eu faço com cores, é um pouco na contramão daquilo que tava acontecendo, você via pranchas com trabalhos seguindo sempre uma linha muito tribal, em preto e branco, então todo muito já deve ter visto isso: um trabalho sempre em linhas. Estou recuperando algo que pra mim é muito importante: ter um trabalho bonito, que seja colorido, que seja feliz!

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Elefante Voador: Uma mensagem pros leitores do Elefante Voador.

Lilivic: Fico muito feliz que estejam lendo, que estejam nessa plataforma, que estejam interessados no meu trabalho…

[Pausa para pensar]

Acho que todos que de alguma forma chegam nessa plataforma e se interessam por artistas, são pessoas buscando novidades, são pessoas que estão buscando coisas que fogem daquilo que virou o comum. Então, eu desejo que essas pessoas continuem sempre buscando aquilo que é diferente, buscando os trabalhos criativos, buscando a cor e a alegria. No momento que todo mundo busca o mesmo tipo de informação, os mesmos canais, o mundo vai ficando mais chato.

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Jogo Rápido

Um livro: 100 dias entre o céu e o mar, Amyr Klink. ~ Um livro que representa muito do momento que estou vivendo.

Um filme: As aventuras de Pi

Uma música: Top Of The World, Gotthard

Um lugar: Praia

Uma frase: “O maior risco que eu corri era não ter partido.” ~ Amyr Klink

Um artista nacional: Os Gêmeos (grafite), Espeto (grafite), Fernando Vilela (xilogravura), Derlon (grafite)

Um artista internacional: Paul McCartney

Pintura: Paz

Ilustração: Uma representação

Lilivic: Alegria, sorriso

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O livro do Amyr Klink foi tão inspirador para a Lilivic, que ela nos enviou o trecho referente a frase do jogo rápido, confiram:

“(…) A fria e difícil corrente de Benguela, meu caminho obrigatório até as proximidades da ilha de Santa Helena, é particularmente perigosa no mês de junho. Planejei partir no verão, quando as águas do Atlântico Sul são mais clementes, e estabeleci uma data-limite para a partida, além da qual eu deveria reconsiderar seriamente a decisão de me fazer ao mar. Essa data era o final do mês de maio, e já estava queimada. Uma colossal avalanche de problemas contribuiu para isso. Mas, se tomei essa decisão, não foi sem avaliar os riscos. Eu havia trabalhado nesse projeto durante mais de dois anos, sem jamais fazer uma única concessão que lhe comprometesse a segurança. Tinha um barco e um equipamento como sempre sonhei — perfeitos. Estava preparado para o pior, e por um período tão longo no mar seria impossível, cedo ou tarde, evitar o pior. Então, por que não partir?

Finalmente, meu caminho dependeria do meu esforço e dedicação, de decisões minhas e não de terceiros, e eu me sentia suficientemente capaz de solucionar todos os problemas que surgissem, de encontrar saídas para os apuros em que porventura me metesse.

Se estava com medo? Mais que a espuma das ondas, estava branco, completamente branco de medo. Mas, ao me encontrar afinal só, só e independente, senti uma súbita calma. Era preciso começar a trabalhar rápido, deixar a África para trás, e era exatamente o que eu estava fazendo. Era preciso vencer o medo; e o grande medo, meu maior medo na viagem, eu venci ali, naquele mesmo instante, em meio à desordem dos elementos e à bagunça daquela situação. Era o medo de nunca partir. Sem dúvida, este foi o maior risco que corri: não partir. (…)”

Amyr Klink, “100 dias entre o céu e o mar”work_card_2


Contatos da Lilivic

Site: www.lilivic.gallery

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