Entre os voos do Elefante Voador sempre nos deparamos com pessoas cativantes. Um desses encontros aconteceu na inauguração da exposição de chapéus inspirados no filme Alice Através do Espelho no Shopping Boulevard Tatuapé, onde o Elefante Voador ficou, digamos assim, encantado pelo carisma da Adriana Peliano,

Adriana é presidente da Sociedade Lewis Carroll do Brasil e especialista quando o assunto é Alice no País das maravilhas. Como ficamos encantadas com sua apresentação no evento, resolvemos convidá-la para uma entrevista. O resultado ficou muuuuito bacana e você pode conferir logo abaixo 😉

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Bate-papo com Adriana Peliano

Elefante Voador: Primeiramente conte para os leitores do Elefante Voador quem é a Adriana Peliano, seus hobbies, paixões, trajetória…

Adriana Peliano: Meu lado esquerdo do cérebro diz assim… Sou artista visual, designer, ilustradora, escritora e uma espécie de Alice. Meu trabalho como artista viaja em diferentes suportes como a colagem e a assemblagem, o vídeo e a instalação; e como designer, dialogo com outras artes como a literatura, o teatro, a música e a moda. Me formei em Comunicação Social na Universidade de Brasília (1999), fiz pós graduação em Design Gráfico no SENAC/SP (2001); mestrado em Artes Visuais e Novas Mídias no KIAD / UK (2003) e mestrado em Estética e História da Arte na USP/SP (2012), com orientação de Katia Canton, defendendo a dissertação “Através do Surrealismo e o que Alice encontrou lá”. No mundo de Alice minhas atividades são intensas, constantes e transbordantes.

Já o lado direito diz… Sempre em busca de objetos curiosos, restos de brinquedos, cacos de mundos e rastros de estórias, costuro desejos, monstros e contos de fadas. Minhas colagens e assemblagens criam metamorfoses mágicas e múltiplas, onde a lógica do cotidiano é reinventada em novos sentidos e narrativas, criando jogos de linguagem e labirintos de sonhos. Tudo se transforma para contar novas estórias, abrindo portas para o maravilhoso.

http://adrianapeliano.blogspot.com.br
www.adrianapeliano.blogspot.com.br

 

alicequem.blogspot.com.br
www.alicequem.blogspot.com.br

Elefante Voador: Quando teve seu primeiro contato com o universo de Alice no país das maravilhas?

Adriana Peliano: A primeira Alice que conheci ainda bem pequena foi a do desenho da Hannah Barbera. Era uma Alice pós moderna, que ao invés da toca do coelho, caía dentro do aparelho de TV, encontrava Fred Flinstone e andava pela estrada do mágico de Oz. Esse jogo intertextual de cruzamentos de universos ficcionais conduz até hoje meu interesse por Alice, fascinada que sou pelas viagens da menina por outros reinos, como o Sítio do Picapau Amarelo de Monteiro Lobato. Alice de fato conheceu Emília e Narizinho em algumas estórias do autor brasileiro.

1º livro de Alice de Adriana Peliano
1º livro de Alice de Adriana Peliano

Aos nove anos ganhei a minha primeira edição de Alice, ilustrada pelo Nicolas Guilbert. Diferente da Alice loira e comportada da Disney, essa Alice era morena e assustada, e me identifiquei logo com ela e seus conflitos em um mundo estranho onde ela tentava encontrar o seu lugar. Aos quinze anos descobri a edição da Summus, com um complexo prefácio de Sebastião Uchoa Leite que me revelou uma nova Alice sob o prisma da semiótica, da psicanálise e da filosofia. A obra de Gilles DeleuzeA Lógica do Sentido” foi então a travessia do Espelho. Hoje vejo claramente como Alice viaja comigo e se transforma dentro das minhas próprias transformações.

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Elefante Voador: Na sua opinião, o que despertou seu interesse na obra de Lewis Carroll?

Adriana Peliano: Pensando hoje acredito que por ser uma obra em movimento, num namoro constante entre a literatura e as artes visuais. A obra viaja e sempre se renova na arte e na vida como um jardim de metamorfoses. Quando Alice responde a pergunta da lagarta dizendo que não sabe quem é pois está em continua transformação, vejo que essa inquietação extrapola as páginas do livro e a menina segue sua viagem caleidoscópica em uma volta ao mundo em 150 anos. Por isso não crio hierarquias fixas entre as diferentes leituras da obra. Alice é a própria potência de tornar-se outra e assim desestabilizar certezas, num convite ao mergulho no desconhecido e na coragem para atravessar o espelho.

Faz tempo que Alice já não é mais apenas nome de menininha, ou de personagem de obra extravagante. Alice é nome de viagem, sonho, metamorfose e desafios enigmágicósmicos. Alice é viva e desafia todo saber instituído despertando a multiplicidade caleidoscópica da metamorfose de tudo o que existe. Um livro de perguntas móveis e mutantes que nos convida a procurar o jardim das inesgotáveis possibilidades criativas que existe em cada um de nós. Como disse o escritor Paulo Mendes Campos em carta para sua filha Maria da Graça:

Esse livro é doido, o sentido está em ti!

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Elefante Voador:  Quando soube que você gostaria de levar Alice definitivamente para sua vida?

Adriana Peliano: Na década de 90 fui visitar em Brasília, aonde vivia, uma exposição de ilustradores de Alice. Fiquei tão fascinada que decidi que dali pra frente também ilustraria os livros de Alice e embarquei numa viagem nesse mundo fascinante, labiríntico e paradoxal. Ilustrei as duas obras (Aventuras de Alice no país das maravilhas e Através do espelho e o que Alice encontrou lá) com uma técnica até então inédita nesse contexto, misturando objetos, assemblagens, fotografia e computação gráfica. Essas ilustrações foram mostradas em 98 em Oxford, em Christ Church, universidade onde Lewis Carroll (pseudônimo de Charles Dodgson) trabalhou e viveu, na comemoração do centenário da morte do autor.

Naquele momento me tornei membro das Sociedades internacionais dedicadas ao estudo e a divulgação da obra de Lewis Carroll. Hoje sou membros das Sociedades Lewis Carroll da Inglaterra, dos Estado Unidos e do Japão. Em 2009 decidi criar a Sociedade Lewis Carroll do Brasil para reunir outros alicinados como eu e produzir novas reinações inspiradas na obra do autor. Já fizemos alguns eventos multimídia com música, literatura, cinema e artes plásticas. Tenho dado também uma série de palestras sobre a história das ilustrações de Alice e workshops onde as pessoas recriam Alice no imaginário caleidoscópico contemporâneo, através de colagens e livre associações. A Sociedade tem quatro blogs onde publico centenas de informações interessantes sobre o assunto, entre arte, teoria e variedades. Sou também colecionadora de edições especiais de Alice mais alicinantes e alicedélicas.

Minhas primeiras ilustrações das Alice (1998):

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Ilustração de Adriana Peliano
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Ilustração de Adriana Peliano
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Ilustração de Adriana Peliano

Veja mais em: adrianapeliano.blogspot.com.br

Livros publicados relacionados à Alice e Lewis Carroll:

1) Edição comemorativa dos 150 anos de Alice. Tradução Maria Luiza Borges. Colagens de Adriana Peliano sobre ilustrações originais de John Tenniel. Rio de Janeiro: Zahar, 2015.

Colagem de Adriana Peliano
Colagem de Adriana Peliano
Colagem de Adriana Peliano
Colagem de Adriana Peliano
Colagem de Adriana Peliano
Colagem de Adriana Peliano

Veja mais: adrianapeliano.blogspot.com.br

2) Aventuras de Alice no Subterrâneo. Concepção e Projeto Gráfico:  Adriana Peliano. Tradução: Adriana Peliano e Myriam Ávila. São Paulo: Scipione, 2011).  Tradução do manuscrito de Alice simulando um facsimile. Vencedor do prêmio jabuti pelo projeto gráfico.

Tradução, tipografia, concepção e projeto gráfico Adriana Peliano
Tradução, tipografia, concepção e projeto gráfico de Adriana Peliano

Veja mais em: adrianapeliano.blogspot.com.br

3) Lewis Carroll na Inglaterra Vitoriana. Kátia Canton. Ilustrações Adriana Peliano. São Paulo: DCL, 2010.

Adriana Peliano sobre Tenniel e Hieronymus Bosch
Adriana Peliano sobre Tenniel e Hieronymus Bosch
Adriana Peliano sobre Tenniel e Salvador Dali
Adriana Peliano sobre Tenniel e Salvador Dali

Veja mais: alicenations.blogspot.com.br

Elefante Voador: Qual a influência do universo fantástico de Alice no seu dia a dia?

Adriana Peliano: Acho que as imagens respondem bem.

Elefante Voador: Conte um pouco sobre a Sociedade Lewis Carroll do Brasil para quem não conhece 🙂

Adriana Peliano: A Sociedade Lewis Carroll do Brasil é uma associação com fins criativos, que visa estimular a imaginação, a investigação e a admiração pela obra de Lewis Carroll, em especial os livros de Alice. Essa Sociedade foi fundada em 2009. Desde então nossa atuação e produção tem sido intensa e diversificada. Entre elas se destacam eventos alicedélicos, palestras realizadas no Brasil e no exterior, oficinas de colagem, blogs, publicação de livros e artigos, proposição de instalações artísticas interativas, entre outras atividades artísticas e culturais. Nessas atividades conto com a participação permanente do músico e compositor Paulo Beto e de outros membros da Sociedade Lewis Carroll, além de artistas, pesquisadores e escritores especialmente convidados, como por exemplo os integrantes do Grupo Oficcina Multimédia.

SLCB

Sociedade Lewis Carroll do Brasil:

www.lewiscarrollbrasil.com.br
alicenations.blogspot.com.br
alicenagens.blogspot.com.br

Sociedade Lewis Carroll da Inglaterra:

lewiscarrollsociety.org.uk

Sociedade Lewis Carroll dos Estados Unidos:

www.lewiscarroll.org

Elefante Voador: Como foi a experiência da confecção do chapéu para a exposição?

Adriana Peliano: Foi muito inspiradora e alicedélica. O chapéu é um símbolo que oferece múltiplas possibilidades criativas. A cartola do mágico é uma de suas manifestações que nos encantam e ainda surpreendem. Inicialmente sonhei com um portal abrindo passagem para outros mundos magicósmicos. O chapéu que criei tornou-se então um vortex líquido aonde Alice mergulha em espirais de sonhos, segurando uma chave mágica. Paralelamente ela viaja em sua máquina multidimensional desbravando novas aventuras e desafiando o tempo e espaço como conhecemos. Essa simultaneidade de ações em movimento e em diferentes escalas conversa com as aventuras cinematográficas de Alice. Nesse sentido a colaboração da aderecista Fabiana Fukui foi fundamental para materializar esse sonho.

Veja o vídeo com o chapéu em movimento:

Elefante Voador: O que achou do resultado final do seu projeto e da exposição como um todo?

Adriana Peliano: Achei o resultado efervescente. Não só pela criatividade, inteligência e engenhosidade dos artistas envolvidos como também por homenagear a obra de Lewis Carroll no que ela tem de fértil e inspiradora. O chapeleiro é também um artista que vive num outro tempo, com outra lógica, que subverte o conhecido e o lugar comum com enigmas e desafios para a linguagem e o pensamento. Sinto que os chapéus criados para a exposição dialogam e compartilham maravilhas criando um ambiente lúdico e especial para os visitantes. No mundo louco em que vivemos somos chamados por uma loucura afirmativa que movimenta a diferença e a multiplicidade, num elogio à imaginação e à liberdade criativa.

Confira as fotos de todos os chapéus expostos nesta publicação.

Elefante Voador:  Hoje você pode dizer que trabalha com o que ama? Qual uma realização que ainda deseja conquistar?

Adriana Peliano: Sim, trabalho com o que amo e amo o meu trabalho. Minha imaginação transborda de idéias sempre viajando na criação de novos mundos, sonhando acordada e acordando nos sonhos. Cada vez mais quero materializar e compartilhar essas invenções como parte desse grande movimento de transformação planetária que está em curso.

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Elefante Voador: Deixe uma mensagem para os leitores do Elefante Voador

Adriana Peliano: Essas são as respostas de um oráculo Alicedélico que criei:

  1. Flua no rio das metamorfoses.
  2. Aceite perguntas sem respostas.
  3. Faça tratos com monstros fabulosos.
  4. Pare de girar ao redor da mesmice e se torne amigo do tempo.
  5. Crie o seu próprio caminho para o jardim encantado.
  6. Mergulhe no desconhecido.
  7. Acredite no impossível.

Veja a imagem do oráculo aqui:

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Jogo Rápido:

Uma artista que admira: Remedios Varo.
Um filme: “Daisies” (1966) de Věra Chytilová.
Uma música: “The Fairest of the Seasons” cantada por Nico.
Um hobbieGarimpo em feiras de antiguidades, sebos, brechós, gavetas, sótãos e porões.
Um livro:  “Metamorfoses de Piktor”; conto de Herman Hesse.
Uma frase: “e quando acordou, o dinossauro ainda estava lá”. O menor conto que existe, escrito por Augusto Monterroso.
Um sonho: Despertar.


Elefante pergunta: Também ficaram encantados com Adriana Peliano?

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