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Meu Coração e Outros Buracos Negros, Jasmine Warga | Resenha

Hoje o Elefante Voador traz a resenha de Meu coração e outros buracos negros, de Jasmine Warga que foi publicado pela editora Rocco em março do ano passado. Trata-se de um livro especial e comovente. Esperamos que gostem ♥

Aysel tem 16 anos, frequenta a mesma escola dos dois irmãos mais novos, trabalha em uma empresa de telemarketing e acaba de tomar uma decisão: vai se matar. Entre uma ligação e outra no trabalho, seu passatempo favorito é navegar pelo site Passagens Tranquilas. É ali que, tomada pela depressão, pretende encontrar um parceiro para colocar seu plano em prática, mesmo sem saber bem ainda como tudo isso funcionará.
A motivação para tirar a própria vida está ligada ao pai, mais especificamente ao crime cometido por ele três anos antes. Até então a rotina de Aysel não tinha nada de surpreendente, mas era tranquila. Não havia os sussurros toda vez que passava pelos colegas no corredor da escola, tampouco o olhar alerta e recriminador da mãe toda vez que se encontravam. Antes, Aysel morava com o pai. Agora, divide o quarto com a meia-irmã na casa em que a mãe mora com o novo marido. O sentimento de estar sempre sobrando a acompanha onde quer que esteja.
No Passagens Tranquilas, Aysel conhece seu parceiro de suicídio, Ronan, 17 anos, que mora numa cidade próxima. Apesar de não terem nada em comum, eles fazem um pacto e escolhem a data: 7 de abril, a menos de um mês do dia em que se conhecem. Aysel demora a entender as razões daquele rapaz bonito, querido pelos amigos e com uma família que parece amá-lo tanto, querer tirar a própria vida. Ao mesmo tempo que fazem uma contagem regressiva, planejam os detalhes do grande ato que pretendem protagonizar juntos.
A autora Jasmine Warga conduz o leitor pelas dores causadas pela depressão e pelo desespero que levam um adolescente a querer cometer o suicídio. Simultaneamente, mostra um caminho capaz de alterar esta situação tão dramática. Aysel começa a percebê-lo à medida que é tocada pelo amor e pela atenção de algumas pessoas. Enquanto luta contra seus medos mais profundos, ela precisará encontrar uma maneira de mostrar a Ronan a rota alternativa que encontrou.

Autor: Jasmine Warga
Tradução: Petê Rissatti
Preço: R$ 29,50
312 pp. | 13,7x 20,7 cm
ISBN: 978-85-7980-268-3
Assuntosjuvenil, rocco jovens leitores, ficção – romance/novela
Selo: Rocco Jovens Leitores

Leia um trecho disponibilizado pela editora clicando aqui.


Resenha

O livro de Jasmine Warga conta a história de Ayzel, uma adolescente com depressão que acredita que o melhor para ela e para as pessoas ao seu redor, seria se ela deixasse de existir. Ela não vê sentido em continuar vivendo se seu coração parece um grande buraco negro que continua a aumentar dia após dia.

Alguns anos antes, seu pai cometeu um crime e isso acaba influenciando a vida de Ayzel. Ela tem medo de que algo do gene do pai dela tenha passado pra ela. E que em algum momento ela também machuque alguém. Ela vê os olhares recriminadores onde quer que vá. Antes que o pior aconteça, ela acha melhor tirar a própria vida.

Eu sempre brincava de barganhar comigo mesma: “Talvez se as fofocas sobre papai parassem, talvez se a mamãe começasse a me ver como uma filha normal, talvez se eu pudesse garantir que não vou virar o papai.” Mas a última condição sempre matava a negociação toda.

Apesar de estar certa sobre sua decisão, ela não sabe se tem coragem de fazer isso sozinha. Então, durante seu horário de trabalho, ela acaba recorrendo a um site voltado para suicidas, onde eles podem encontrar alguém que também esteja com medo de fazer isso sozinho.

O problema do suicídio, que a maioria das pessoas não percebe, é ser algo realmente difícil de concretizar. Eu sei, eu sei. As pessoas sempre ficam de mimimi dizendo que ‘o suicídio é uma saída covarde’. E acho que é mesmo… quer dizer, estou desistindo, me rendendo. Fugindo do buraco negro que é meu futuro, me impedindo de crescer e virar a pessoa que tenho pavor de me tornar. Mas o fato de ser uma saída covarde não garante que vá ser fácil.

Neste site ela conhece Roman. Um garoto de 17 anos, com um apelido de RobôCongelado, que mora relativamente perto de Ayzel e que já decidiu como e quando quer acabar com a própria vida. Ele só precisa de uma companhia que não vá desistir no último momento.

Conforme eles se encontram para planejarem o suicídio, a relação deles vai mudando. A princípio, Ayzel acha que não tem nada em comum com Roman. Ele é bonito, popular, cheio de amigos, tem uma mãe amorosa… ela não consegue entender o que seria tão grave que o faria desistir de tudo isso. 

Será que é assim que a escuridão vence, convencendo-nos a prendê-la dentro de nós, em vez de jogá-la fora?
Não quero que ela vença.

Aos poucos, eles percebem que um entendem os sentimentos do outro como ninguém, e vão criando uma cumplicidade incrível enquanto a contagem regressiva para o “grande dia” vai diminuindo.

Pela primeira vez, consigo realmente enxergar. RobôCongelado não está brincando. RobôCongelado realmente quer morrer.
A lesma preta também vive dentro de RobôCongelado.

Além disso, é nítido que eles ficam mais felizes quando estão juntos. Essa pequena faísca de felicidade que Ayzel experimenta, começa a mudar a cabeça da garota. Ela não fica mais ansiando pela própria morte. Ela quer viver. Quer experimentar novos sentimentos, novas experiências. Ela começa a lutar não só pela sua vida, mas também pela vida de Roman. Ayzel precisa mostrar a ele, que não importa o que tenha acontecido no passado, ele ainda pode ter um futuro. Ele ainda pode se permitir ser feliz.

Será que é possível fazer Roman entender isso? Fazê-lo ever que minha mudança não tem a ver com dar para trás, mas com luta?

Cabe a nós como leitores, torcer para que ambos consigam enxergar possibilidades além da morte. Que ambos aprendam a conviver com sua tristeza sem chegar ao ponto de precisarem morrer para se libertarem dela. Cabe a nós leitores, torcer para que os personagens possam ver o lado bom das coisas, como o amor da família, dos amigos, e as inúmeras surpresas que a vida ainda pode oferecer.

Gostei muito da narrativa, da forma como a depressão é tratada ao longo da história, de como os sentimentos são abordados. Jasmine Warga tem uma sensibilidade incrível ao tratar de um tema tão pesado. Fiquei encantada.

Depressão é como um peso de que não se pode escapar. Ele esmaga você, faz até as menores coisas, tipo amarrar os tênis ou mastigar uma torrada, parecerem uma corrida de trinta quilômetros montanha acima. A depressão faz parte de você; está nos seus ossos e no sangue. Se sei alguma coisa sobre isso, é o seguinte: é impossível escapar.

Acho que é importante tentar passar essa mensagem de esperança, de que a vida não é só esse buraco negro, de que a única saída é a morte. É importante que autores e comunicadores passem adiante de que a vida não é um mar de rosas, principalmente para quem precisa conviver com a lesma negra da depressão, mas que, mesmo assim, ela ainda vale a pena. Existe tanto a se viver, a se explorar. Existem tantas pessoas que sentiriam nossa falta. Por mais que seja difícil enxergar, é uma mensagem que deve ser passada adiante sim.

[…] E, desta vez, sinto minha mão. Sinto tudo. E quero continuar sentindo. Mesmo as coisas dolorosas, horrendas, terríveis. Porque sentir as coisas é o que nos faz saber que estamos vivos.

Meu coração e outros buracos negros é exatamente o que eu precisava após passar pela experiência 13 reasons why. A história passa uma mensagem de esperança, superação e, principalmente, de que existem outras saídas. Obrigada por isso, Jarmine Warga. Obrigada por esse presente.

(*) Infelizmente, no meu exemplar, veio faltando um caderno – das pags 225 a 226 – então um pouco do ritmo da história se perdeu. Não sei se foi um caso isolado ou se aconteceu com toda a tiragem da impressão.


Elefante pergunta: Qual livro você já leu que também tem uma mensagem de esperança e superação?

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